Era uma vez o amor
Chutando pedras, desenhando corações
Escrevendo o mesmo nome até acabar a caneta
Era uma vez o amor fazendo planos
Insistindo
Implorando
O amor era da labuta
Dormia tarde, acordava cedo
E a primeira e última imagem que ele via
Todo dia
Era sua bandeira e seu tormento
O amor comia sonhos
Se sentia cada vez mais forte
Então corria mais rápido
O amor acreditava
Daí se atirava, mergulhava
Ia cada vez mais fundo
O amor se iludia
Mas o amor tentou agüentar firme
Até o dia em que foi morrendo, minguando
Diante da desatenção
Do desmazelo
Da falta de ânsia
Do sossego
O amor lutou contra moinhos de vento
Acabou louco, trancado em seu próprio abraço
Vestindo eternamente uma camisa de linho branco
O amor era virgem
Amou sozinho
Se preocupou demais
Perdoou demais
O amor se debateu até o fim e morreu feio
Distorcido
Seco de lágrimas
O amor não foi amado
Acordo triste e culpada quando sonho com outro homem, como se eu tivesse traído meu amor. Eu ando suspirando pelos corredores da faculdade, do trabalho, da minha casa, da igreja. Eu me sinto sozinha do seu lado porque a alegria de saber que vou te encontrar, enquanto ainda estou em casa arrumando o cabelo e passando perfume, não se completa sem poder segurar sua mão.
Estou corada e sinto minha mente nua enquanto me ouço pensar essas palavras, sentada ao seu lado, tentando te perder do meu campo de visão. É que um humor assim tão puro e comentários inteligentes às vezes me ensurdecem de nervoso adolescente, daí eu sinto como se qualquer um pudesse ver meu coração batendo acelerado sob as camadas de roupas, pele, carne e osso.
Sinto a culpa brigando com o desejo exatamente como quem se apaixona, mas os dias e noites que passam cada vez mais rápido desafiam a validade... isso não pode ser paixão! Tudo o que sei é que o homem perfeito, o mais gentil e sincero, meu baluarte do incondicional na verdade não é meu.
Eu não consigo mais aproveitar meu egoísmo e não tenho vontade nem intenção de afogar minha dor em outros garotos. Eu perdi a capacidade de depositar em qualquer outro sorriso tímido a alegria que eu só tenho pra alguém que não me vê mais como a mulher de sua vida, que ri agora do amor que eu mesma o proibi de me entregar.
Sem explicação me vejo feliz, quando o que eu chamo de amor é um sentimento que se basta, que independe até mesmo do reconhecimento e da satisfação do objeto amado.
Um dia, uma moça em quem eu confiava decidiu ser sincera, não com os segredos dela, mas com os meus! Ser sincero com os segredos dos outros não é honestidade, é falta de lealdade. Ela poderia (D E V E R I A) ter me procurado e dito: não concordo com o que você está fazendo, você deve confessar seus pecados, se arrepender dos seus erros. Mas não, ela foi e confessou meus pecados sozinha, sem minha presença ou autorização. Ela se portou como heroína, “robinwoodiana” e inconseqüente, como um Sylar cujo superpoder é viver a vida dos outros, se apoderando da sordidez alheia pra aliviar o tédio de seus dias medíocres de quem não se abstém por um ideal, mas por medo de viver.
Bom, é claro que eu neguei até a morte, mas em momento algum eu fui desleal a ela. Eu guardei seus pecados e esperei que ela mesma se arrependesse e sofresse suas conseqüências como qualquer cristão faria. Eu fui leal até mesmo a quem se beneficiou dos meus erros, sentando no próprio rabo para julgar o meu. Eu fui leal e sou leal até hoje, sem sentir que seria menos lesada se botasse a boca no mundo e cuspisse todas as transgressões de quem me colocou na berlinda!
Então, oito anos depois, ela me escreveu dizendo que está com saudades. Ela, que destruiu minha reputação, minha ingênuidade e minhas amizades. E eu estou aqui, em frente ao computador, pensando numa resposta educada.
É estranho voltar aqui depois de tanto tempo, mas eu precisava. Tem coisas que eu só posso dizer aqui, pra você, que me entende, me julga ou me critica, mas sempre com respeito, sempre à distância.
Ele me consome, e é uma vez por semana. Eu me recuso, não me entrego... eu fujo! Não quero nada, eu quero tudo! Só que ele finge que não me vê, abaixa os olhos quando sabe que eu vou passar, não me toca, não responde meus e-mails... mas ele me ouve e é isso que me consome – sua falsa displicência. Estou cansada dele, do seu corpo triangular, das suas calças batidas. Me sinto farta de tanto falatório que não diz nada, dele não saber exatamente o que está fazendo mas continuar mesmo assim. Não suporto mais a farsa dos seus cabelos brancos. E ainda sim passo 4 horas por semana suspirando, como se ele pudesse ser um príncipe encantado um dia. Eu me olho no espelho procurando a mim mesma, porque perto dele eu não me reconheço! Meu rosto cora de raiva, meu coração acelera de ansiedade e eu não me acredito. Como pode haver um sentimento, que não de repulsa, por alguém como ele, que não passa de um homem antiquado, metido a alternativo, a desencanado, a “eu moro sozinho”?
E eu to aqui, 5 da tarde, pensando nele, na roupa que ele não vai notar no nosso próximo encontro, num jeito de conquistar aquele coração duro, aquele olhar distante. Eu estou aqui pensando se um dia eu consigo entender o que ele queria de mim na única tarde em que ele abriu a guarda, em que ele me deixou olhar nos seus olhos. É o meu jeito maternal de querer consertar tudo, sempre, de querer arrancar a fórceps a tristeza que vem dele, a incerteza que vem dele e de mim. A vontade que eu tive ontem de abraça-lo forte e dizer façamos paz, eu substituí por um “eu não te quero” oco e por outros braços de consolo.
A gente troca um vicio pelo outro:
São cigarros por chicletes,
Chocolates por barrinhas de cereal.
Relacionamentos ruins pelo cara perfeito,
O sorriso mais sincero, as palavras mais doces
Os dias mais ensolarados dentro do peito.
Você troca a solidão pela saudade
E um mundo de novos sentimentos brota em você.
Você substitui o enjôo da vida
Por um frio na barriga,
Você se vicia nele também.
E então você decide que não vai substituir esse vício,
Você encontrou o melhor de todos!
Daí você anda de mãos dadas pela vida
E também se vicia nas mãos que seguram as suas.
Não seria virtude o vício de ser feliz?
Ele tem mil primeiros encontros perfeitos guardados na manga. Eu não falo de nenhum Dom Juan, mas ele já me reconquistou muitas vezes. O crescimento e o aprendizado dele me fascinam, mas ele não é nenhum bebê. Eu vou derretendo nas suas poucas palavras e me misturando ao derretimento dele nas minhas muitas.
Preciso do endereço da moça que ensinou esses novos truques pra mandar um cartão agradecendo! Foi simplesmente perfeito!
Ele não é o mesmo de antes, se não tem ninguém por perto ele toma iniciativa, desmarca seus compromissos pra me ver, beija diferente, segura diferente... e meus planos foram por água abaixo. Eu que ia pegar leve e bancar a irmãzinha... esperar até passar essa dor que tenho no peito, quando vejo ele de longe e não posso chegar perto. Daí ele vem e me surpreende, me tira o fôlego, me tira as dúvidas e a insegurança com seu interesse e seus esforços! Eu fico feliz em dormir tarde porque estou conversando com ele e em perder o sono.
Longe de estar confusa ou insegura, eu preciso dizer que não espero nada, que não quero ter agora sentimentos definidos, nem fazer planos, nem mandar cobranças. Como uma viciada em relacionamentos ruins, porém em recuperação, vou viver um dia de cada vez, uma mensagem no meio da tarde por vez, um suspiro de saudade por vez e um reencontro feliz por semana!
Eu gostaria de descrever melhor o que continua, após tantos anos, me atraindo em você, mas não sei dizer se é a voz desafinada e insegura, a forma suave como acaricia minha nuca e até mesmo o sarcasmo intrínseco em tudo o que você fala comigo. Eu culparia o teu abraço que não encaixa perfeitamente no meu, mas a gente se esforça tanto que fica ainda mais gostoso. O passado bate à nossa porta e a gente abre sorrindo, porque tudo o que a gente viveu (e sentiu) foi um sonho perfeito.
Quando brinco com a sua orelha entre os meus dedos, gosto de te ouvir resmungar por causa de tudo... a gente se parece tanto nesse ponto. Quando você respira e empurra pra frente o meu corpo, não consigo conter meus suspiros. Quando releio as coisas que você me disse, sorrio escondida corrigindo seus erros e não acredito que estou outra vez afim de você.
Você prevê a minha tristeza e me beija na testa um segundo antes que a única lágrima que eu me permito role pelo meu rosto. Mas essa noite você não viu que essa tristeza era sua, que só hoje eu chorei de verdade pelo nosso fim, mas mesmo assim desejei que você encontre outro sorriso como o seu, que devagarzinho te desarme, te aprisione e te faça querer viver pra sempre o mesmo momento feliz.
Eu sou mais de dizer “eu te amo” quando o mundo está ruindo, do que quando tudo vai bem. Se as coisas vão bem e eu estou rindo contigo, já é sinal de que eu te amo. Agora, mesmo se a gente briga, se você fica doente, eu sou a primeira a te encher de mimos. Se um dia eu descubro o mecanismo que faz com que eu mergulhe (nunca fundo, é claro) em novas relações juro que descubro a reversão disso, pra não desabar de novo nos braços do vento... Essa não é mais uma sessão “EU COM PENA DE MIM”, tá mais pra “EU CAINDO NA REAL” mesmo, porque o centro do universo de cada um é o próprio umbigo. É bem provável que o meu também seja, porque ninguém está me vendo lutar contra a fome, as injustiças... atravessar os cegos na rua. Eu só estou aqui, reclamando por ser tão solícita e preocupada com quem nem liga...
- Martinha, o que você faz na sua folga?
- Faxina.
- Não, outras coisas?
- Ah, eu lavo, passo, cozinho.
- Martinha, eu estou falando sério... você não sai?
- Claro que eu saio!
- Ah, bom! Onde você vai?
- Eu vou ao supermercado, levo as crianças ao médico...
- Querida, o que é que você faz para se divertir?
- Ah, entendi o que você quer saber... quando termino de lavar a louça da janta eu assisto a novela e o Big Brother. Se a folga for no fim-de-semana tem sempre o Gugu, o Fantástico... isso quando as crianças não querem jogar video-game ou assistir o Pânico. Mas aí eu adianto meus bordados ou aproveito para dormir mais cedo porque a vida é puxada, sabe?
- Você só pode estar brincando!
- Porque, Cecília?
- Oras, você não tem vida social?
- Eu sou mãe, esposa, trabalho fora... quase não me sobra tempo para ir à igreja, quanto mais para uma vida social! Vida social pra mim é o papo com as vizinhas na janela enquanto ponho a roupa na corda! Ou na fila do banco lotado, no ônibus apertado, na recepção do médico das crianças. Não tenho tempo nem pique pra badalação.
- Pronto, chegamos.
- Muito obrigada pela carona, Cecília.
- Muito obrigado, prima.
- Imagina, queridos. Estimo as melhoras do Pedrinho.
- Obrigado.
Assim que entram em casa o Agenor grita com Martinha:
- Ê, mulher a toa! Tinha que me fazer passar vergonha na frente da prima?
- E você queria o que? Que eu tivesse mentido? Dê-se por feliz que eu não contei o que você faz enquanto isso.
Ia o velho de olhos triiiiistes por uma avenida movimentada, sob um sol escaldante.
Sempre achei que 17 graus era o ideal, mas o velho de olhos triiiiiistes persistia em sua caminhada, com dois sacos de estopa na mão direita, um calor de 32 graus sobre a cabeça e dob os pés o asfalto fumegante. Os sacos pesados quase arrastando no chão.
De um saco menor o velho atirou no chão dois copos de milho duro, daquele que se dá para as galinhas. Em vão aguardou que os pombos atacassem o milho e o fizessem lembrar da vida no campo, de um sol não menos escaldante, mas de um ar mais limpo, de uma outra vida que deixou seus olhos triiiiiiiistes por ter sido invadida por carros, asfalto, prédios e abandono.
O velho balançou a cabeça em sinal de desaprovação, levantou o saco e foi para casa pensando onde estariam as galinhas (no supermercado!) e em onde estariam os pombos. E quem viu a cena jurou que os olhos do velho seriam um pouco menos triiiiistes se os pombos tivessem alguma consideração e imitassem suas galinhas.
Não interessa se eu comecei a ouvir Bob Dylan com 23, se tem buracos na minha vida cultural que só uns 3 anos de intercâmbio nas principais capitais mundiais e mais um tour pelo meu próprio país poderiam preencher. Não interessa se eu como pizza de queijo bebendo ovomaltine, se eu amo um broto de bambu e qualhada no almoço, se eu fracassei na minha primeira dieta. Não interessa se sou orgulhosa demais para pedir ajuda, se sou teimosa demais para ouvir conselhos, se sou egoísta o suficiente para ajudar as pessoas que amo só quando o barco delas quase naufragou. Eu preciso ter o direito de fazer o que eu quiser dos meus sonhos e da minha vida, mesmo velha pra ser publicitária, mesmo jovem para ser escritora... e eu preciso de companhia, o que é difícil de admitir, embora todo mundo saiba que é impossível viver sozinho. Hoje eu estou com pena de mim, com tanta gente mais ferrada do que eu. É uma ansiedade por não sei o que e um medo de que mais coisas dêem errado. Mas isso é impossível se eu não estou tentando nada! Acho que eu posso sobreviver apenas ao meu próprio pessimismo... descobri que o alheio pode me derrubar.
Estou com saudade agora, daquelas que brotam uma lágrima bem no meio do sorriso, no fim da tarde, quando o nosso som me surpreende no elevador. Mas nós não nos amamos, somos apenas dois versos cínicos que desenham o contorno de um sonho de padaria, só pra fingir que o que a gente tem é algo bom.
Outro dia eu escutei AMPLIDÃO e descobri que você não me desperta o que o Chico e a Elba cantam. Como em todas as outras paixões eu quero que você seja meu refúgio, que me conte piadas, que ache linda a minha carência, que entenda minhas drásticas mudanças de humor quando eu estou com sono, que ame meu cachorro tanto quanto eu, que me traga Ovomaltine batido com canela e goste de me ouvir falar sem parar logo cedo porque isso faz parte de mim. Eu quero que você seja capaz de tudo isso, não quero ter que ter nada a te oferecer e quero que você seja, faça, pense, resolva tudo por mim e não o contrário!
A gente nunca está de bom humor ao mesmo tempo, mas seu sorriso reluz no meu peito e quase me faz sorrir toda vez. Eu sei que só te mantenho porque amo o nosso clima tenso e nossas alfinetadas discretas, fingindo que nada aconteceu. Amo quando você se gaba ou diz algo de que não é capaz e me olha de lado, buscando minha aprovação e meu silêncio. E eu amo desafiar você como a um inimigo, porque eu espero vencer e te fazer meu escravo, pra aprisionar na minha retina o teu sorriso e te ter a qualquer momento nos infinitos meses em que ainda durar teu gosto na minha boca. Eu não te amo, mas por você aceito parecer brega e burra, escrevendo essas palavras nada sutis e me entregando a um sentimento desde o início condenado.
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